Entrevista

A mulher que viu o Saci

Carmela Pereira, 87 anos fez vários pedidos, mas um em especial: “Pedi a ele que quero viver até 105 anos”

Romualdo Cruz Filho
12/06/2022 às 09:41.
Atualizado em 12/06/2022 às 09:43

Carmela entre as suas obras em seu ateliê, no bairro Ibirapuera (Mateus Medeiros/Gazeta de Piracicaba)

“Saciiiiiiiii!”, gritou a menina ao caminho de casa. O sol a pino fazia os olhos arderem no campo aberto da fazenda Rio Acima, próximo do atual bairro Monte Alegre. “Saciiiii! Estou vendo você aí. Não adianta fugir mais de mim”. 

O ser das fábulas de Lobato era real. Com pouco mais de um metro de altura, franzino, o menino travesso segurava seu cachimbo com uma das mãos, mantinha-se saltitante em uma perna e ria, sem parar. Mas não dava a mínima para a menina. Ou, pelo menos, parecia não dar.

“Eu insisti em chamar a atenção daquele pestinha”, contou a artista naïfs Carmela Pereira, 87 anos após o episódio que marcou sua história pessoal. “Ele parou sobre um cupinzeiro e eu sabia que estava me ouvindo. Aproveitei o momento e fiz todos os pedidos que vinham na minha cabeça. Quero ser costureira, lavadeira, passadeira, cozinheira, cuidadora, fui lembrando e falando. Meu desejo era saber fazer tudo na vida para não depender de ninguém. Eu sabia que ia precisar da ajuda do Saci e aquela era a minha grande oportunidade”. 

Carmela conta essa história com a inocência de uma menina, sentada em seu ateliê, no bairro Ibirapuerra, na rua Pedro Grossi, 331. “Pois é verdade. Eu vi o Saci e ele me deu tudo o que eu pedi. Trabalhei muito na minha vida. Só me esqueci de pedir para ele não levar embora o homem que eu amava. Não sei se foi o Saci que levou, mas que a tuberculose ajudou, isso eu tenho certeza”.

“Na ocasião do meu encontro com o Saci”, continuou, “eu tinha cinco anos de idade. Só sei que depois a fazenda foi vendida e fomos levados para a cidade, eu e minha irmã Margarida. Ela era mais nova ainda. Tinha 1,7 ano. Nosso destino foi o Orfanato Coração de Maria Nossa Mãe. Ali aprendi muitas coisas, inclusive a pintar. Me lembro que estava com nove anos quando fazia minhas primeiras obras”.

A família de Carmela era formada por 12 irmãos. “Mas mantive contato apenas com a menorzinha, com a qual me encontro até hoje. Sou eu, ela e Deus. Tenho sim uma filha, a Ana Cintia da Silva, que leva uma vida independente. É a filha com o José Rodrigues, que morreu aos 31 anos. O homem da minha vida. Único. Que Deus o tenha, meu amor!”.

Duas personalidades ainda marcam presença forte na memória de Carmela. A dona Lurdes e José Maria Ferreira, ambos profissionais do Sesc-Piracicaba, que perceberam o seu talento para os pincéis e abriram as portas da entidade para que ela desenvolvesse lá muitas atividades. “Trabalhei ao lado do Sesc 25 anos da minha vida, onde acabei dando cursos de tudo o que eu sabia fazer. Eram trabalhos rápidos, mas bem interessantes. Até aula de costura eu dei. A dona Lurdes me dizia: ‘faça tudo o que você acha que sabe fazer’. Fiz”.

“Já o Zé Maria era homem de visão. Percebeu a força do meu trabalho de pintura. Fiz esse poema para ele: 

A tristeza que me acompanha
Em que tento expressar nas telas que os pincéis arranham
De saudade de alguém que não posso esquecer
E que como a uma flor eu vi fenecer
A ti, José Maria Ferreira, minha eterna gratidão
Sem fim, o tempo passa, mas eu ainda o julgo junto a nós
Nessa pequena mostra em que dizemos de alguém que por nós
Passou deixando marcas, que o tempo não apagou
E eu pintarei como da vez primeira em que vistes minha obra e a imortalizou
Tu não te fostes, amigo, pois sei que aqui estás com seu olhar de crítico em nós todos
E então, em nossos corações e em nossas obras, olharás e renascerás.
Renascerás, podes crer
Amigo, jamais te esqueceremos

O tempo voou e do Orfanato ficou apenas uma canção que Carmela entoa em seus momentos de solidão. Voz macia, pausada, serena, como se tudo tivesse acontecido ontem. “Não me esqueço de nenhum detalhe dessa música. A irmã Joana me perguntou no Coração de Maria o que eu queria ser na vida. Respondi com toda segurança: ‘Soldado de Jesus’”. Esse é o nome da canção.

Somos pequenos da cruzada
Terna esperança do senhor
Somos nós a geração formada
Na escola do nosso Deus e Amor
A cruzada infantil
Vem trazer ao Brasil
Um vigor novo e forte
Dos pampas ao norte
Dos campos à serrania
Das praias ao sertão
Nós havemos de ouvir o Brasil repetir
O seu nome é cristão

“Essa música eu cantava no asilo aos nove anos. Canto ainda. É minha vida”, recorda Carmela, com um ar de quem esconde alguma coisa. “Vou falar. Fiquei doente neste final de semana, com infecção urinária. Dois dias de observação. Curei com chá de folha de louro. Estou melhor, senão não teria nem condições de conversar com vocês, de tão ruim que eu estava”.

Questionada se havia mais alguma coisa na vida que a importunava, disse que roubaram os óculos dela e por isso não consegue mais pintar. “Dia desses fui na Unicamp fazer exame de glaucoma. Pingaram remédio nos dois olhos. Fiquei com o olho embaçado em um banco de jardim. Quando percebi que eu estava melhor para ir embora, procurei os óculos que havia colocado ao meu lado e lá não estava mais. Não tenho dinheiro para comprar outro. Ganho só aposentadoria de R$ 1.200”.

Para quebrar o gelo da situação, ela foi ao baú de livros que escreveu e começou a ditar títulos. Anote aí: Rebutalhos; Era uma vez; Éridino, o reino do amor; O nascimento de Bila; 500 anos de Brasil; O Menino Riacho Itapeva; a Gata Malhada; Felipe, são 12 livros que escrevo. Parece que o Sesc vai abrir um espaço para eu expor essas obras. Quem sabe eu vendo alguma coisa”.

Carmela conta também que suas obras estão lá encostadas, precisando de reparo. “Mas vou gastar dinheiro para ninguém comprar? Faz algum sentido?” Assim que o repórter pegou uma delas para apreciar, observando um casal com uma menina segurada pelas mãos, ela disse: “Essa é Matilde. Esteve também no orfanato, mas já morreu”.

Quando o assunto parecia se esgotar, levou o jornalista à sala, repleta de arte e abriu um saco cheio de Saci. Eram bonecos com cabelo de menina, curioso. O fotógrafo também foi presenteado com um exemplar de Carmela.

Com o Saci de volta à tona, a entrevistada recuperou a infância, onde ela parece viver a maior parte do seu tempo. “O Rio Acima era sítio da vovó. Mas perdemos tudo para o Estado. Não sei o que aconteceu. Tinha boi e cavalo. O Saci dava nó no rabo de todos eles. Eu via e sabia que um dia ia encontrar o Saci. Encontrei. Vivi. Voltei à fazenda uma vez para visitar o que sobrou, mas não encontrei mais o moleque. No lugar dele havia um cachorro rosnando para mim. Era o lobisomem. Eu gritei: ‘Em nome de Jesus, Nosso Senhor, suma daqui’. Ele partiu. Caim, caim, caim. Era início da noite. No sol à pique tem Saci. Escuridão, lobisomem. Mas hoje estou velha e cansada. Gente velha é cheia de história. Apenas história que inventa, porque não se lembra mais de nada”.

Questionada se havia feito algum pedido especial ao Saci e que espera para ser cumprido, disse que sim. “Pedi a ele que quero viver até 105 anos. Não sei se ele cumpre. Estou com 87 anos e vou esperar mais um pouco para saber. Enquanto isso, fico na frente da minha casa, vendo o movimento do mundo, vendo o barco rodar”. E ri.

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