MUralismo

Arte e Comunidade convida a olhar para o que é essencial na vida coletiva

Camilo Riani, Erasmo Spadotto, Eduardo Grosso e João Ariozo Peixe Pixado conduzem um projeto no Monte Alegre

Da Redação
15/05/2022 às 08:25.
Atualizado em 15/05/2022 às 08:27

Em um painel gigante, no Centro Comunitário, artistas dão o tom e forma à fauna e flora do Monte Alegre (Christiano Dihel Neto/Gazeta de Piracicaba)

Arte é provocação. Arte é reflexão. Arte é integração. Arte pode ser também um processo de diálogo com o fundamental, envolvendo diversos recursos e atores que provoquem um pensamento integrado, para que a sociedade se enxergue diante da realidade complexa e estabeleça uma nova ordem que a modele e possa, assim, seguir adiante, com maior senso de humanidade. 

Arte na Comunidade, um projeto patrocinado pela Oji Papéis Especiais, no bairro Monte Alegre, pode ser considerado um modelo para este exercício que envolver a comunidade local, a fim de se pensar a relação do homem com a natureza, para se construir novos parâmetros de harmonia entre o que é dinâmico e o que é eterno. O projeto contou também com a parceria da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Renda (Semdettur)

As crianças entram com as palmas das mãos, devidamente estruturadas por uma equipe de suporte e de artistas, que trabalham o MuroArte. No gigante painel – estilo também conhecido como Muralismo – que abrange toda a lateral do prédio do Centro Comunitário do bairro vão aparecendo, num emaranhado de cores, elementos da flora e fauna montealegrense: garça, capivara, gambá, tatu, quati, ouriço... Quais artistas? Camilo Riani, Erasmo Spadotto, Eduardo Grosso e João Ariozo Peixe Pixado.

Exemplares da espécie art stratum que compõem o cenário cultural da cidade. A equipe de suporte também é à altura, toda treinada em casa por Camilo: Paulo Riani, Amélia Riani, Chico Riani e Gustavo Riani. Uma construção sincronizada e familiar.

Na coordenação artística, o professor e cartunista Camilo Riani conta que Arte na Comunidade interage com um projeto anterior, patrocinado pela Oji Papéis Especiais, intitulado Circuito Monte Alegre, em que foram elaboradas 12 placas, distribuídas pelo trajeto que leva ao bairro, para sinalizar aos motoristas visitantes a existência de animais silvestres na região, o risco de atropelamento, bem como apresentar a rica flora onde eles vivem e contar um pouco da história do bairro. “Uma orientação com estilo e beleza”, observa. 

Ambos os projetos, portanto, se complementam e terão continuidade. “A próxima etapa será invadir o bairro e dialogar diretamente com a comunidade local, ainda por meio do MuroArte e de painéis, trazendo elementos que reforcem a ideia de convivência, respeito, harmonia, encontro, cultura, sabor, beleza entre outros adjetivos espirituosos”, explicou. Segundo Riani, visto em sua amplitude, o trabalho tenta aproximar o homem da natureza e fazer com que ele se veja neste ambiente e o respeite com sendo algo matricial em sua vida.

O que parece simples é resultado de um longo estudo acadêmico de Camilo Riani.

“Eu pensei durante um bom tempo sobre a relação da arte primitiva com a sociedade contemporânea e percebi essa sintonia entre as pegadas (as palmas das mãos) dos homens da antiguidade deixadas nas paredes das cavernas com as palmas das mãos dos homens modernos, em suas calçadas da fama. Foi quando me ative a esta relação direta e compreendi de fato o valor das mãos para a identidade do coletivo. Sendo assim, este trabalho não poderia ser mais individual. Precisava ser construído por uma grande equipe. O fato de eu ter problema de saúde que me dificulta permanecer por muito tempo em pé, trabalhando, me ajudou a pensar um trabalho conjunto, com ajuda de outras pessoas, e cheguei a este modelo. Escolhi três grandes artistas de Piracicaba, sendo dois deles, Eduardo e Erasmo, com mais de 20 anos de Salão de Humor e humor gráfico. Além do João Ariozo, responsável também pela logística dos trabalhos, que vem ganhando muito destaque pelo seu grafismo. Assim, com apoio da Oji Papéis Especiais, demos o pontapé inicial. Em síntese, as crianças entram com as mãos e suas respectivas iniciais de nomes, a equipe de apoio dá o acabamento nessas mãos, aplicadas em áreas pré-estabelecidas, e os artistas fazem o resto. Também deixam suas identidades e dão o colorido e a forma à rica fauna e flora do Monte Alegre”.

Oficinas

Mas não é só isso. As crianças que participam do projeto seguem o roteiro do que Camilo Riani chama de artexperiência. A ideia é apresentar a concepção do trabalho a partir da experiência de cada artista envolvido. Nas oficinas realizadas, eles apresentam suas respectivas artes e seu processo criativo e destacam ainda aspectos que marcaram profundamente sua formação e sua vida. “Esse é o momento transformador, porque são momentos de forte impacto, de ArteImpacto. Essa emoção tentamos passar para as crianças e funciona. Ouvimos elas dizerem umas às outras ‘jamais vou esquecer disso’, é comovente”, relata Riani. Além dessas técnicas de envolvimento e troca de experiências, as crianças são envolvidas no processo criativo e pintam seus próprios quadros, que vão levar para casa. Participam ainda com as palmas das mãos nas pegas em painéis de 1,5m por 1 metro sobre os quais os artistas vão trabalhar novas formas de sobreposição, até se chegar a um painel completo. Cada oficina conta com a participação de 40 crianças na média.

Como em projeto anterior do mesmo gênero, de MuroArte, desenvolvido no muro do Colégio Prudente de Moraes, em que mais de 400 crianças participaram do trabalho, Riani conta que a intenção era novamente trazer alunos das escolas próximas ao Monte Alegre. “Mas pelo fato da distância, o trabalho ficou restrito aos alunos do ensino fundamental do Mello Ayres e das crianças do próprio bairro”. Em síntese, Riani explica que é um exercício de união para um trabalho em conjunto, que valorize a vida em sociedade e traga novas experiência que fortaleçam a convivência com criatividade. Esta segunda etapa do projeto será lançada no dia 25 de maio, às 14 horas, para todos os interessados. Tudo isso ao vivo e em cores. Arte é provocação. Arte é reflexão. Arte é integração. Arte é tudo.

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