Mulheres de Piracicaba

Ao som de um tempo memorável

Conheça um pouso sobre Lydia de Souza Rezende, Maria Dirce de Almeida Camargo e Maria Apparecida Mahle

Romualdo Cruz Filho
26/06/2022 às 07:32.
Atualizado em 26/06/2022 às 07:34

Maria Dirce e sua aluna Barbara Brieger, que posteriormente foi professora de piano em Trossigen, Alemanha (Arquivo Pessoal)

Impossível contar a história cultural de Piracicaba, em seu nascedouro, sem a forte contribuição da habilidade feminina. Recupero aqui três mulheres que, em ordem cronológica, fazem a diferença em um cenário aparentemente constituído pela ótica do marmanjo: Lydia de Souza Rezende, Maria Dirce de Almeida Camargo e Maria Apparecida Mahle.

Essa tríade não foi escolhida por inspiração dos deuses. Não está em Homero, nem nos livros de Marly Therezinha Germano Perecin, que também poderia ser citada como referência de primor no trabalho árduo de tecer a história da cidade com a sensibilidade de quem dialoga com o espírito do tempo. Outras tantas mulheres poderiam ser chamadas para esta homenagem. Mas o momento é de síntese e vamos nos ater apenas à piracicabana Maria Dirce, nascida em 24 de janeiro de 1915.

Se as três primeiras décadas do século 20 é de glória para a intelectualidade e a cultura artística da Noiva da Colina, segundo relatam os próprios intelectuais, historiadores e cronistas da cidade, como Sud Mennucci, Mário Neme, José Maria Ferreira e Cecílio Elias Netto (só para citar alguns), a dedicação de Maria Dirce para com sua própria educação musical foi plena e de uma objetividade de tirar o chapéu.

Aluna e amiga de Fabiano Lozano (o espanhol que teve seu nome fortemente marcado pela educação musical de jovens da Escola Normal, posterior Sud Mennucci e Colégio Piracicabano, criador do inesquecível Orfeão Piracicabano), ela não poupou tempo e esforço para alcançar um nível de excelência ao piano.

Conhecimento que compartilhou com todos aqueles que a procuravam para aprender a tocar o instrumento, seja em sua própria casa, seja na Escola de Música de Piracicaba Maestro Ernst Mahle, onde atuou praticamente durante toda a sua vida como educadora e artista, ao lado do maestro Ernst Mahle e de Cidinha Mahle. 

Maria Dirce teve sim o privilégio de ser filha de um grande homem, que a estimulou fortemente em suas iniciativas: José Rodrigues de Almeida, clínico geral muito popular por atender os colonos e trabalhadores da Usina Monte Alegre, o que lhe garantiu um registro expressivo na história da cidade, tendo, inclusive, seu nome dado ao ambulatório do bairro, ainda em seus tempos áureos. Ao ingressar na Escola Normal, ela nem bem sabia que estava no coração da elite pensante paulista, onde o estímulo ao saber e à arte eram potencializados à quintessência. Movida pelo espírito do tempo, se despertou para a musicalidade e avançou.

Ao encontrar limites para sua formação em Piracicaba, buscou em São Paulo por reforço e chegou a ser aluna da pianista franco-brasileira Madalena Tagliaferro, um ícone da cultura nacional e inspiradora de novos talentos. Para se diplomar e poder lecionar profissionalmente, Maria Dirce chegou inclusive a frequentar o Conservatório de Tatuí.

Maria Dirce foi casada com Joaquim Cypriano de Camargo, com quem teve quatro filhos, sem nunca perder o ímpeto que a movia na dinâmica cultura da cidade. Ela foi um dos principais nomes que atuaram com afinco na criação da Sociedade de Cultura Artística de Piracicaba, força motriz do movimento cultural da cidade. Quando o modernista Mário de Andrade esteve em Piracicaba, no Teatro Santo Estevão, para apreciar a apresentação do Orfeão Piracicabano, no final dos anos 20, e elogiar ao mundo os feitos de Fabiano Lozano, em publicação de sua conferência no Diário Nacional de São Paulo, Maria Dirce estava lá.

Era o mesmo teatro onde ela se apresentou com certa frequência quando convidada para acompanhar recitais e instrumentistas que precisavam de uma pianista à altura para dar suporte às suas performances. Essas lembranças todas são de sua filha, Antonia de Almeida Camargo, que hoje mora em um sítio na cidade de Camanducaia, em Minas Gerais.

Dona Cidinha Mahle faz um relato carinhoso da amiga. “Conheci dona Dirce no início de 1937, quando eu tinha apenas 6 anos de idade. Era uma época em que as meninas, adolescentes e moças estudavam piano, como complemento de educação e quando podiam... Eram vários os professores da cidade, mas minha mãe escolheu para mim dona Dirce, que fora discípula do maestro Fabiano Lozano e que sempre estudou com conceituados professores”, relembra.

“Fui iniciada em leitura musical com essa magnífica professora. Era muito agradável e proveitoso estudar com ela. Nós não tínhamos piano e eu estudada em casa de um fazendeiro, cujas filhas tinham um instrumento. Mas em agosto de 1937 eu ganhei meu primeiro piano, que a dona Dirce recomendou aos meus pais. Começou daí por diante toda a minha relação com a professora, não só musical, mas também cultural”.

Dona Cidinha passou 10 anos sob a orientação da professora amiga, com quem frequentou muitos concertos da Sociedade de Cultura Artística, para os quais sua mãe a levava “religiosamente”. Foi dona Dirce quem orientou Cidinha para que ela tivesse aulas com o renomado pianista Fritz August Erwin Jank, em São Paulo, com o qual ela estudou durante três anos.

O próximo passo foi encaminhar Cidinha para masterclass com Walter Wilhelm Giesiking, alemão que estivera no Brasil, mas, cuja agenda frustrada na ocasião, desencadeou no encontro com Ernst Mahle e uma longa história conjugal, bem como na fundação da Escola de Música de Piracicaba (EMPEM), escola que contou com o empenho de dona Dirce para vir ao mundo, a partir do Pró-Arte São Paulo.

Sua filha Antonia conta também que dona Dirce foi professora e artista até os últimos minutos de sua vida, sendo professora de Celisa Frias (violino), Edmundo Hora (cravo), Júlio Amstalden (órgão de tubos), entre outros jovens talentos. Era muito bem relacionada com Waldith Acorsi, filha do professor Valter Acorsi, da Esalq, que estava frequentemente em sua casa para ensaios de acompanhamento. Outra figura lendária que estava sempre presente em seu rol de amizades era a esposa do pintor Arquimedes Dutra, dona Zoraíde Dutra, Dona Dirce foi ainda aluna de artes plásticas de Hugo Benedetti. Segundo Antonia, está com Hora todos os métodos usados pela sua mãe, uma doação que comprova a relação e profunda amizade entre ambos.

Ela se lembra também o lado social de dona Dirce. “Recordo que nos anos de 1960 ela e a então militante social e futura vereadora Adeli Bacchi lideram na cidade um forte movimento para que a população não comprasse carne, porque o preço do produto estava aviltante e inacessível à grande maioria da população”.

Maria Dirce de Almeida Camargo morreu em 1998, quando completaria 93 anos. Seu nome foi imediatamente dado à Sala 1, em que ela ensinava, na Empem. Em 2008, seu nome foi dado ao Armazém Cultural da Estação da Paulista, onde acontecem as aulas de música do Projeto Guri, a partir de propositura do então vereador José Aparecido Longatto (PSDB). Este é também o mesmo local onde ela embarcava de trem para se encontrar com seus mestres na capital paulista, sempre em busca de um sonho.

Uma viagem e tanto que só o tempo pode tecer, o mesmo tempo que desmancha, a depender da capacidade dos contemporâneos de identificar suas referências, prestar homenagens e perpetuar os grandes nomes de sua história. Dona Dirce é um exemplo que precisa ser devidamente elencado nesse panteão de nomes nobres de Piracicaba.

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