Autoridades em fígado

Estudo de caso na Santa Casa

Médicos discutiram caso de uma paciente jovem com quadro de uma falência cardíaca, hepática e renais súbitas em praticamente 24 horas

Da Redação
26/06/2022 às 07:35.
Atualizado em 26/06/2022 às 07:37

Médicos especialistas Humberto Passos, Ana Claudia Oliveira, Eduardo Nicolela, Tiago Marim , Amauri Groppo e Alex Gonçalves (Divulgação)

Médicos da Santa Casa de Piracicaba, o cardiologista Humberto Passos (CRM 73689), o nefrologista Alex Gonçalves (CRM 99878) e a gastro/hepatologista Ana Claudia Oliveira (CRM 99440), considerada hoje uma das maiores autoridades em fígado no Brasil, estiveram reunidos nesta semana no Salão Nobre do Hospital para discutirem, junto a profissionais da Instituição, o caso de uma paciente jovem com quadro de uma falência cardíaca, hepática e renais súbitas em praticamente 24 horas.

“A complexidade desse caso específico envolve um dado relacionado ao uso de fitoterápico para emagrecimento. A paciente em questão deu entrada pela cardiologia com suspeita de enfarte, mas na verdade tratava-se de falência generalizada com desfecho trágico e triste. Por essa razão, discutimos todos esses aspectos ligados ao processo de emagrecimento e uso de fitoterápicos, que não é sempre benéfico como muitos consideram”, salienta Passos ao enfatizar que o fato ocorrido recentemente no Hospital reacende a necessidade de se discutir um pouco mais e ampliar o conhecimento nesta área.

De acordo com ele, o uso indiscriminado e sem controle de fitoterápicos tem como prerrogativa o aumento cada vez maior da possibilidade desse quadro clínico. “Infelizmente, essa paciente foi a óbito por falência generalizada e precisamos trazer isso à tona exatamente como aprendizado e como possibilidade de assistência adequada ao quadro”, salientou.

O uso sem controle de fitoterápicos também ocasionou a morte da enfermeira Edmara Silva de Abreu, de 42 anos, em São Paulo, em fevereiro deste ano. O caso, na época, teve repercussão nacional e, desde então, a comunidade médica e científica tem intensificado e propagado o perigo do consumo de medicamentos - sejam eles sintéticos ou os ditos naturais - de forma indiscriminada. Na época, a enfermeira havia sido diagnosticada com uma hepatite fulminante decorrente do consumo de um composto de "ervas para emagrecimento".

O produto, vendido em cápsulas, se dizia "natural" e, na composição, continha ervas como chá verde, carqueja e mata verde, substâncias hepatotóxicas, que podem causar danos ao fígado.

Durante o encontro, o nefrologista Alex Gonçalves, que também é referência em doença renal crônica avançada e atuante no campo de doenças genéticas e raras, reforçou que é ”imprescindível discutir os agentes que afetam o fígado, um órgão extremamente importante em termos de metabolismo e que tem a função de sintetizar as substâncias que ingerimos e, quando afetado por alguma agressão aguda ou crônica, traz sérias consequências, precisando em muitos casos do transplante ou levando o paciente à morte”, enfatiza.

"A hepatite aguda tem vários fatores associados, inclusive o uso de medicamento de forma inadvertida, a exemplo dos chamados naturais, os quais as pessoas acreditam não fazerem mal por serem naturais. Há uma lista de fitoterápicos e chás utilizados para emagrecer e para o bem-estar, os chamados detox do fígado que, na verdade, são potenciais que levam à lesão do órgão", salienta a gastro/hepatologista Ana Claudia.

Ela alerta ainda que as pessoas precisam parar com a automedicação e entender o quão isso é perigoso. "Antes de tudo, as pessoas precisam consultar seu médico, se informar sobre o que vai ingerir, o porquê, a quantidade exata e o tempo dessa ingestão. Hoje em dia, as pessoas usam o anti-inflamatório como se fosse um analgésico. Isso tornou-se cultural e precisamos alertar a todos que há vários anti-inflamatórios extremamente tóxicos para o fígado e que podem levar a pessoa à morte dependendo da quantidade e do tempo de uso”.

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