INTERNACIONAL

O combate em silêncio na prisão de Zhang Zhan, testemunha da covid-19 em Wuhan

As imagens de Zhang Zhan sobre a situação dos pacientes nos corredores lotados de um hospital de Wuhan mostraram um raro vislumbre sem filtros do marco zero do coronavírus na China, nos primeiros meses da pandemia

AFP
05/03/2021 às 07:11.
Atualizado em 22/03/2022 às 10:02

As imagens de Zhang Zhan sobre a situação dos pacientes nos corredores lotados de um hospital de Wuhan mostraram um raro vislumbre sem filtros do marco zero do coronavírus na China, nos primeiros meses da pandemia.

O vídeo foi um dos muitos que levaram esta cidadã comum, ex-advogada e que atuava como jornalista, à prisão, onde uma greve de fome para protestar contra o tratamento que recebe a deixou muito debilitada.

Em outro vídeo, Zhang enfrenta de maneira tranquila um guarda que a aborda e exige que pare de filmar.

"É meu direito monitorar o governo", respondeu, enquanto o homem tentava retirar seu telefone celular.

Zhang se tornou um "símbolo" da busca por informações sobre o que aconteceu na China no início da pandemia de covid-19, afirma seu advogado.

Compartilhar suas imagens com uma grande comunidade teve um preço elevado para esta mulher de 37 anos.

Ela foi detida em maio e sete meses depois foi condenada a quatro anos de prisão por "criar problemas e provocar distúrbios".

Mas o seu verdadeiro crime parece ter sido publicar uma narrativa da pandemia que a China não gostaria que fosse divulgada.

A versão de Pequim exalta a forte liderança do Partido Comunista no controle da crise de saúde e esconde o medo, a confusão e as críticas sobre a gestão inicial do problema.

Zhang decidiu viajar a Wuhan a partir de Xangai em fevereiro de 2020, depois de ler uma publicação on-line de um morador de Wuhan que a levou a buscar informações sobre o que estava por trás do foco de coronavírus.

"Dizia que sentiu como se tivesse sido deixado para morrer e fiquei emocionada com o que escreveu", afirmou Zhang em um documentário sobre ela dirigido por um cineasta anônimo, disponibilizado no site China Change.

Na época, as autoridades haviam decretado o confinamento total da cidade, importante centro de conexões internacionais, para tentar frear o misterioso novo vírus que depois passou a ser conhecido como covid-19.

De Wuhan, Zhang divulgou imagens feitas nas ruas e abordou assuntos como o acesso ao diagnóstico do vírus e a capacidade dos hospitais.

Ela também tentou organizar uma campanha a favor dos parentes das vítimas de covid-19, que buscavam indenizações.

"Ela foi a Wuhan por simpatia e movida pelo desejo de ajudar as pessoas", disse um de seus advogados, que pediu para não ter o nome revelado.

"Será que tragédias como esta voltarão a acontecer porque os fatores que as provocam não foram resolvidos e o sistema que criou a tragédia continua governando?"m questiona.

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