Cultura centenária

Os preparativos para a 196ª Festa do Divino Espírito Santo

Programação religiosa da 196ª Festa do Divino Espírito Santo tem início no dia 29 deste mês

Romualdo Cruz Filho
08/05/2022 às 07:54.
Atualizado em 08/05/2022 às 07:57

Fachada do salão de festas da Irmandade do Divino teve a pintura renovada (Mateus Medeiros/Gazeta de Piracicaba)

A historiadora Marly Therezinha Germano Perecin, apaixonada pelas tradições piracicabanas, sabe como ninguém interpretar o significado dos festejos do Divino Espirito Santo, à beira do Rio Piracicaba. Em traços largos, ela conta que a festa em sua origem simbolizava a consagração da vida, depois do período das águas de verão e suas inundações, das doenças de extermínio em escala, decorrentes do clima quente e úmido. Superada essa dura fase de tragédia e provação, revelava-se a força dos sobreviventes. Vitoriosos na luta e com novas perspectivas, as comunidades ribeirinhas e rurais, rio acima e rio abaixo, se organizavam e se encontravam, com seus barcos, na altura da rua do porto, para uma grande celebração, demonstrando o poder da fé e da proteção do Divino no imaginário coletivo. Uma ritualística sincera e profundamente espiritualizada, com comes e bebes, muitas rezas, danças e cantorias.

Guardadas as devidas proporções, se as inundações já não trazem mais a dimensão do drama dos ribeirinhos de outrora, os dois anos de pandemia de Covid-19 servem como exemplo para demonstrar que as ameaças da natureza estão sempre à espreita e com potencial respeitável de destruição e morte. Por isso, foi um grande desafio para muitas famílias, especialmente para as famílias devotas do Divino Espírito Santo, resistir a esses dois anos à espera de sinais para o momento do reencontro. Elas têm agora todos os motivos para fazer esta grande festa, com seus ritos primitivos, rezas, comes e bebes, danças e muita cantoria. A mensagem é sempre única: A vida venceu mais uma vez. 

Os preparativos para a Festa do Divino Espírito Santo de Piracicaba, começaram na quarta-feira (4). Trata-se de um evento que acontece anualmente, há 196 anos, na região do Largo dos Pescadores, à margem do Rio Piracicaba, onde fica o salão de festas da Irmandade do Divino Espírito Santo. Os primeiros passos para a maratona de atividades, que iniciam no dia 29 de maio e vão até 17 de julho, já foram dados e começou na quarta-feira (4), com a transformação de 400 quilos de tomates maduros em molho, o recebimento das primeiras cotas de carne para os pratos tradicionais, a separação do sal em pequenas embalagens, que serão distribuídas aos devotos. Na semana que vem, serão outros 400 quilos de tomates processados. O movimento vai se intensificando conforme o calendário avança.

Este é o espírito que embala dois personagens-chaves na história recente da Irmandade do Divino, Mari Basso Xuruca, diretora gastronômica da equipe que prepara todos os alimentos que serão servidos durantes a festa, e Victor Alberto Toti, presidente da Irmandade. "Tenho muita fé. Ela me move. Faço tudo pela minha fé. Não tem explicação". Esta é a chave do seu enigma, que a motiva desde criança. "Nem sei exatamente quando comecei a participar. Lembro que era muito pequena. Depois que entrei, nunca mais saí", afirma Xuruca, com os olhos brilhando de emoção. 

Toti, por sua vez, tenta ser mais racional ao explicar sua aproximação do movimento gastroritualsiticoreligioso. "Nasci no Bairro Alto, mas fui criado na Rua do Porto. Comecei como voluntário trabalhando na festa. Não sei o que aconteceu... " Silêncio. Voz embargada... "Só sei que estou aqui e isso passou a ser a minha vida". Ele está na coordenação técnica, pode se dizer, de todo o processo, que envolve logística da entrega dos produtos, coordenação de todos os 60 voluntários que trabalham no evento, pagamentos etc. "É um compromisso complexo, rigoroso, porque tudo tem que ser muito bem detalhado, em respeito a determinações da tradição e transparência na prestação de contas", observa.

Cerca de 60 voluntários trabalham, portanto, durante três meses, desde os preparativos até o encerramento, com determinação e fé, para garantir a qualidade do evento. A expectativa é que um público aproximado de 50 mil pessoas passe pelo Largo dos Pescadores nesses dias para ajudar a consumir uma quantidade estimada de 5 mil espetinhos, 2.300 pastéis, 2.500 cuscuzinhos, 1.500 porções de fritas, 500 lanches de pernil, 400 porções de frango a passarinho, 400 cuscuzes grandes, todos preparados sob os critérios determinados pela tradição. Xuruca diz que a receita de cuscuz no bafo, por exemplo, é feita em um cuscuzeiro especial e guarda um segredo que é exclusivo da Irmandade.

Segredo por segredo, Toti diz também que, devido ao novo regulamento estadual, que proíbe o uso de fogos de artifícios que fazem barulho, na tradicional queima de fogos no dia do Encontro das Bandeiras, haverá uma pirotecnia especial. "Uma surpresa sem barulho", garante. Outra surpresa deste ano foi da fabricante de tintas CiaCollor e da Tigre, por intermédio da empresa Acefer. Elas colaboraram com a pintura da fachada do salão de festas da Irmandade, doando tinta, material e mão de obra especializada. "A fachada ficou muito bonita. 14 profissionais trabalharam para dar conta do recado. A todos, os nossos agradecimentos públicos. Graças a eles, o espaço da festa ficou ainda mais bonito e divino".

Fim da Festa

Quando se fala em Festa do Divino, antigamente tudo era feito de forma colaborativa e ninguém gastava mais do que era capaz dew doar. No entanto, o tempo tornou o evento uma fonte de receitas para atividades assistenciais, desenvolvidas pela Irmandade do Divino junto a famílias carentes de Piracicaba e região. A gratuidade ficou simbolizada apenas pela entrega de 700 quilos de sal, separados em pequenas porções, que são entregues a todos os presentes interessados. Mesmo assim, um aspecto foi preservado e todos os que estiverem na festa no último dia poderão perceber algo inusitado. Muitas pessoas carentes, que não têm condições financeiras para participar da festa, não são deixadas de fora. Fecham-se as portas do salão de festa e uma nova festa, lá dentro, se inicia, voltada apenas para essa comunidade, que tem enfim a oportunidade de saborear o melhor tempero do Divino Espírito Santo de Piracicaba.

"A turma da Congada fica conosco neste momento para dar uma cor ainda especial ao momento", conta Toti. 

Agenda e festeiros 2023

4 29 de maio - Início das comemorações religiosas, com missa do Envio das Bandeiras realizada pelo padre José Maria, às 9h. Às 12h haverá a Feijoada do Divino, com o Samba da Aninha, no Salão de Festas da Irmandade do Divino. Os ingressos são limitados a 450 pessoas. Valor: R$ 50, fora bebida, como comida à vontade. São tão limitados, que no fechamento desta reportagem recebemos a informação de que todos já haviam sido vendidos.

4 5 de junho - Dia de Pentecostes e a Terceira Carreata da Fé pelos Caminhos do Divino. A concentração será às 9 horas, com saída às 9h30. Devido à pandemia não foi possível levar a Bandeira do Divino de casa em casa e criou-se essa modalidade, que funcionou muito bem. Por isso foi incluída no calendário oficial. Vários bairros recebem a carreata, com encerramento na Catedral de Santo Antônio e Bênção do Monsenhor Ronaldo Aguarelli, entre 11h30 e 12h.

4 11, 12 e 13 de julho - Às 20h, no Salão de Festas do Divino, acontece o Tríduo Solene. São três missas proferidas por padres diferentes. No final do evento é vendido o Bolo do Divino Espírito Santo. A expectativa é de que pelo menos 200 quilos do quitute sejam comercializados junto aos fiéis.
4 14 de julho - Nesta quinta-feira, a partir das 20h, início dos comes e bebes, mais atrações musicais abertas aos visitantes, no entorno do Largo dos Pescadores. A cozinha da Irmandade estará atendendo aos pedidos e haverá barraquinhas nas ruas laterais. 

4 15 de julho - Será realizada nesta sexta-feira o grande leilão de prendas. O destaque fica para a apresentação musical da Banda União Operária. Além do show pirotécnico. Com início às 20h. 

4 16 de julho - A partir das 12h, festa no Salão da Irmandade e no entorno. Às 14h, o grupo de Congada se apresenta; às 15h é a vez da procissão com mortalha. Finalmente, às 16h, o Encontro das Bandeiras. Às 17h, missa do Encontro das Bandeiras com o bispo Dom Devair e Monsenhor Ronaldo Aguarelli. Após a missa, mais festa com atração musical.

4 17 de julho - É o domingo de encerramento. As atividades começam às 9h, com missa do Monsenhor Ronaldo. Depois será servida a tradicional macarronada, com a entrega da Bandeira aos festeiros de 2023.

Observação: Podem acontecer algumas modificações em detalhes da agenda. 
Os festeiros de 2023 serão: o secretário da Ação Cultural, Adolpho Queiroz e Elisabete Bortolin.

Uma nota triste. O devoto que fazia toda a decoração da missa, com as flores, do andor, da procissão. Gustavo Salvatori, faleceu na manhã da sexta-feira (6). Uma perca irreparável.

Quem não conhece essa grande festa popular, terá a oportunidade de sentir o clima de uma cultura centenária, da manifestação do Divino Espírito Santo entre os fiéis, que se reúnem na beira do rio Piracicaba e continuarão se reunindo enquanto a força da fé estiver presente.

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Gazeta de Piracicaba© Copyright 2022Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por