Empoderamento

Quadro de mulheres na Polícia Militar completa 67 anos

Oficiais da Polícia Militar falam sobre a profissão que até 1955 era ocupada somente por homens

Ana Cristina Andrade
15/05/2022 às 08:12.
Atualizado em 15/05/2022 às 08:14

Uma é subcomandante do 10º Batalhão e a outra atua no Comando de Força Patrulha, no serviço operacional (Mateus Medeiros/Gazeta de Piracicaba)

A Polícia Militar do Estado de São Paulo foi a primeira, da América Latina, a te r mulher em seu contingente. Em 12 de maio de 1955, nascia a Polícia Feminina, proposta pela professora Hilda Macedo, titular da cadeira de Criminologia da Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo).

A partir daí ela conseguiu criar um grupo conhecido como "as 13 mulheres corajosas" - ela mesma foi a primeira mulher a se tornar comandante na corporação. Na época, as mulheres trabalhavam mais no serviço social, cuidando de crianças em situação de risco etc.

Hoje, 67 anos depois, há mulheres trabalhando em todas as funções da PM, cumprindo várias missões, em Batalhão de Choque, pilotando helicóptero, trabalhando na Cavalaria, à frente do Corpo de Bombeiros, na PM Rodoviária, atuando em resgate aeromédico, entre outros.

"Temos a tenente Juliana comandando a Força Tática, é uma excelente oficial e desempenha com muita competência esse papel, fazemos parte dos mesmos quadros para concorrer à promoção", diz a major Silvia Andreia Mantoani, 46 anos, que no próximo dia 24 será promovida a tenente-coronel/PM e irá assumir o comando do 24º Batalhão, na cidade de São João da Boa Vista, a 200 Km de Piracicaba.

Detalhe: a oficial, que hoje é subcomandante do 10º Batalhão, diz que vai viajar todos os dias totalizando 4.400 Km de estradas no mês - contando o expediente de segunda a sexta-feira.

Hoje, a Gazeta traz uma reportagem especial com Silva e outras oficiais que representam o efetivo feminino do 10º e do CPI-9 (Comando de Policiamento do Interior Nove). Elas não são somente mulheres ocupando cargos importantes dentro da Polícia Militar, mas também mães, donas de casa, esposas e guerreiras.

A major Silvia conta que entrou na Academia do Barro Branco aos 17 anos, inspirada por seu pai, o cabo/PM veterano Onofre Jesuino Mantoani, que na época era soldado. "Tenho nele meu modelo, meu espelho", revela.

Desde que ingressou na PM, em 1996, ela sempre trabalhou no serviço operacional e comandando o efetivo que atua nas ruas. "Fiquei só um curto período na seção de Justiça e Disciplina, mas sempre trabalhei no operacional".

Vinda de Presidente Prudente, onde trabalhou por 20 anos, ela diz que já é piracicabana e quinzista. "Naquela região atuei nas questões fundiárias, como invasões de terras, em rebeliões de presídios, tentativas de fugas orquestradas pelo crime organizado. Então, isso me rendeu uma grande experiência, principalmente, nas questões ligadas ao crime organizado", declara.

A oficial é Mestre em Ciências Policiais e seu tema foi a Violência Doméstica. No Doutorado, ela fez pesquisa sobre os crimes ultraviolentos, envolvendo o crime organizado, e o enfrentamento dessas organizações, especialmente por tropas especiais.

Na PM, segundo ela, não existe competição entre homens e mulheres. "Sempre fui muito respeitada porque o que existe é uma integração entre os profissionais. A mulher íntegra, é uma parceria. Cada um tem sua peculiaridade e esse complemento é um ganho enorme para a instituição".

Silva é casada com o tenente-coronel Niglia e os dois vivem uma história de amor que começou no início da carreira e foi retomada 23 anos após. Inclusive, quando foi pedir a mão dela ao seu pai, o oficial disse que era "com 23 anos de atraso". 

O marido não poupa elogios. “A major Silvia é uma mulher incrível, uma profissional fantástica, mãe maravilhosa, esposa linda e parceira. Uma pessoa que agrega em tudo que participa, é catequista desde os 14 anos, possui temperamento doce, amigável, amoroso e calmo”, declara.

E continua: “ela é de honestidade e probidade sem igual, tanto no trabalho quanto na vida pessoa, nunca a vi querer tirar vantagem de nada nem ninguém. É pautada pelos mais cristalinos princípios de retidão e de caráter forte.

A filha caçula, Alice Mantonani, 14, diz que a Sílvia mãe é muito legal, mas brava quando precisa. “Tenho muito orgulho dela, conseguindo essa promoção que ela merece muito, de vê-la nas TVs e jornais. Ela merece muito mais do que isso e por mim ela seria já seria coronel”, declara.

A mais velha, Ana Luiza, 18 anos, diz que tem uma mãe muito parceira, que dá a vida pelas filhas, mas ao mesmo tempo bem regrada por conta do trabalho. “Ela é brava quando precisa e, se for necessário, nos defende com unhas e dentes. A Silvia policial é uma questão de muito orgulho, porque a vejo neste meio num cargo muito alto, representando muitas mulheres, numa profissão que é bem machista. É um exemplo de batalha e conquista”.

Tenente funcional

No posto de 1ª tenente da Polícia Militar, Luciana exerce, no CPI-9, diversas funções administrativas, além de Chefe de Seção de Comunicação Social e coordenadora do Curso de Formação de Soldados.

“Muitos desafios e situações foram superados, tendo meu filho Adriel, 16, como principal fator motivacional. Sou mãe, dona de casa, esposa, estudante e policial militar”, enfatiza.

“Não vejo diferença em relação ao gênero masculino e feminino, pois o exercício da função não estão ligado ao sexo e sim à competência”.

Dois comandos

A tenente Juliana Inácio Maldonado Pereira, com apenas 36 anos, acumula, no momento, duas funções dentro da Polícia Militar de Piracicaba: ela comanda a Companhia de Força Tática, com aproximadamente 40 homens, e ainda atua como comandante do 1º Pelotão da mesma Cia que totaliza 12 homens de serviço nas ruas.

A oficial é a única mulher trabalhando no serviço operacional da Força Tática. Há outras policiais femininas na Cia, mas elas atuam no serviço administrativo. "Sempre tive esse sonho, mas encontrei várias barreiras que, na verdade, eram muitos preconceitos", conta.

"Mas, a Cia me acolheu muito bem, principalmente os policiais com os quais trabalho diretamente”, comenta. Quando está com o 1º Pelotão nas ruas, Juliana atende os 11 municípios subordinados ao 10º Batalhão, principalmente nas ocorrências de maior gravidade. 

"Acho que ainda estamos ganhando espaço dentro da instituição, pois, ainda existem muitas barreiras, muito preconceito. Mas, a cada dia a gente está vencendo isso, mostrando a nossa competência como profissional", explica.

O marido, tenente Danilo, oficial da PM lotado no 10º Baep (Batalhão de Ações Especiais de Polícia), diz que apoia a esposa em todos os sentidos. “Para mim, ela sempre foi motivo de orgulho”, diz Danilo. O casal tem dois filhos: Isabela (5) e Gustavo (4).

Grandes desafios

A 2ª tenente Débora Baboni Dominiquini, 32, que comanda uma equipe na rua, diz que a profissão é muito desafiadora, contudo gratificante. “Exige muita dedicação e renúncias, para buscarmos a melhor qualificação possível e reconhecimento”.

Igualdade

O comandante do CPI-9, coronel/PM Cerqueira Leite, disse que a PM trata de forma igual os candidatos e conforme o interesse, e disponibilidade, as mulheres têm entrado na corporação. “Uma vez entrando, elas têm igualdade de condições com os homens nas várias atividades de execução e comando”, completa.

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